Foz do Douro, terra desigual

Uma leitura aleatória de notícias acerca da Foz do Douro permite constatar, de forma clara, os contrastes e desigualdades que marcam este espaço territorial. Notícias de grandes investimentos imobiliários de luxo e prémios de arquitetura alternam com notícias sobre problemas com habitação degradada e criminalidade.
Mesmo tendo em conta o facto de estar em causa um ambiente urbano e com forte densidade populacional, assim como os vieses mediáticos que muitas vezes as notícias encerram, quem percorre a Foz do Douro e visita os vários e diferentes lugares que dentro dela coexistem não pode deixar de sentir que este é um espaço onde a desigualdade está muito presente.
Indicadores como a desigualdade de rendimento e o valor mediano das novas rendas habitacionais assumem na Foz do Douro valores máximos e bem superiores ao resto da cidade e região do Porto, indiciando problemas e desafios sociais sérios e, frequentemente, pouco visíveis.
De facto, a opulência e luxo de habitações, lojas e outros espaços escondem, na Foz, pobreza e sofrimento de muitas pessoas, em particular de segmentos mais vulneráveis, como as pessoas mais velhas e os jovens menos qualificados, que ficam simbolicamente "invisíveis" ou são mesmo forçados a sair, nomeadamente por via dos custos incomportáveis associados à habitação.
Por outro lado, esta imagem dominante de status e luxo associada à Foz dificulta o trabalho social de pessoas e organizações que aqui trabalham e que lutam contra atitudes, preconceitos e generalizações muitas vezes difíceis de contornar.
Como resultado deste "caldo social" desigual, o bem-estar físico e mental de muitas pessoas que vivem na Foz está seriamente afetado, justificando-se abordagens que envolvam novas abordagens, estruturas e processos, designadamente nas seguintes áreas:
- habitação a custos acessíveis (ex: promoção pública para arrendamento social);
- melhor mobilidade e acessibilidade às ofertas locais - económicas, sociais e culturais (ex: mais e melhor informação sobre essas ofertas);
- respostas sociais mais personalizadas e adaptadas, a partir de diagnósticos mais profundos e participativos;
- mais dinamização e intervenção comunitária, com mais diversidade e incentivo à participação dos públicos mais desfavorecidos;
Torna-se assim urgente uma nova dinâmica de intervenção social na Foz do Douro, mais sistémica, colaborativa, integrada e articulada, que permita conhecer os problemas e desafios de forma mais rápida e profunda, assim como co-desenhar soluções mais eficazes e sustentáveis para os eliminar ou, pelo menos, minorar.António Luís Ferreira