Será a Foz amiga dos mais velhos?

Habitação condigna, transporte público acessível, espaços exteriores, acessibilidade, respeito, redes de apoio são condições necessárias para que as cidades sejam mais adequadas para as pessoas mais velhas.
O envelhecimento da população é um dos principais fenómenos demográficos e sociais do século XXI, constituindo-se como um dos problemas cruciais de Portugal dada a tendência crescente da população idosa. Fruto das alterações demográficas e do aumento da esperança média de vida regista-se um aumento significativo da proporção de pessoas idosas e um decréscimo das crianças e jovens na população total.
A consciência desta mudança demográfica tem originado diversos debates em torno da relação envelhecimento/ planeamento urbanístico, debates esses tidos como necessários para uma adequação de políticas e práticas que permitam aos cidadãos envelhecer ativamente e com qualidade de vida, ou seja, que "as cidades não deixem ninguém para trás".
Esta expressão deve levar-nos a questionar o direito ao lugar. Ora, este entendido como direito coletivo, traduzido na possibilidade se viver no lugar e de viver o lugar com dignidade, leva-nos a outra questão: Será que as pessoas mais velhas residentes na Foz vêm esse direito reconhecido?
Se, por um lado, as belas esplanadas ensolaradas junto ao mar, os espaços verdes cuidados, pareçam ser um cenário ideal para os mais velhos, considero que a realidade é bem mais complexa. A pressão imobiliária causada pelo aumento exponencial do turismo nesta zona reflete-se na pouca oferta imobiliária e nos preços elevados de rendas, tornando difícil para os idosos manterem-se nas casas onde sempre viveram. Outra consequência dos altos preços da habitação é a fuga de muitos para zonas mais acessíveis, o que leva à perda das redes de vizinhança para os que permanecem no local, deixando-os entregues a si mesmos, acompanhados pela sua própria solidão.
Será que esta especulação imobiliária não será percecionada pelos mais velhos, inquilinos antigos, com rendas ainda suportáveis, como pessoas não desejáveis, a ocuparem o lugar de novos inquilinos?
Observa-se ainda que, a par dos empreendimentos e moradias luxuosas, coexistem habitações antigas, a carecerem de obras de reabilitação e adaptação, que seguramente não dispõem de condições adequadas em termos de conforto, acessibilidade e segurança, o que colide com o direito constitucionalmente consagrado de todos a uma habitação condigna.
A acessibilidade é outro problema que se levanta para os idosos. Se as ruas estreitas e íngremes, com desníveis podem ser um encanto para os olhos dos turistas, são de facto um obstáculo para aqueles que têm mobilidade reduzida. A somar às inclinações e desníveis, a fraca rede de transportes públicos e a localização distante das paragens dos autocarros públicos às suas residências, levantam sérias dificuldades na mobilidade dos idosos, limitando a sua capacidade de acesso a bens e serviços e de manterem uma vida ativa e autónoma.
Em suma, viver na Foz poderá ser, para muitos seniores, um desafio em termos habitacionais, e de mobilidade/acessibilidade, podendo colocar em causa o direito dos mesmos ao lugar. No entanto, é dever de todos promover condições para que este lugar encantado à beira mar e do rio, seja acessível, digno e inclusivo para todos, e em especial para aqueles que sempre lá viveram, permaneceram e se sentem pertença daquele lugar.
Susana Lopes